Ideias

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Poemas de Outono

POEMAS DE OUTONO

Ruínas






Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!
E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!
Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!
Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…
Florbela Espanca

 

Crepúsculo de Outono






O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito…
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.
O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.
Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.
Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale…o horizonte purpúreo…
Consoladora como um divino perdão.
O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.
A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.
Manoel Bandeira

 

Canção de Outono






Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão…
Tu és a folha de Outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…
Cecília Meireles

 

No Ciclo Eterno






No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Fernando Pessoa / Ricardo Reis

 

Poema de Outono





Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o Outono
A terceira é o grave Inverno
Em quarto lugar o Verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da Primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda

 


domingo, 8 de junho de 2014

Na idade dos porquês

Na idade dos porquês
                                                      Alice Gomes (1946)
 
 
 
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
 
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda  gira rodopia
e cai morto no chão...
 
Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
 
Tu falas falas  professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
 
É a luta professor
a luta em vez de amor.
 
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
 
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes    professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
 
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...
 
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
 
 
Alice Pereira Gomes, escritora portuguesa, nascida em 1910, em Granjinha (Tabuaço), fez os seus estudos secundários e universitários no Porto, onde também foi professora do Instituto Normal Primário. Pedagoga, estreou-se nas letras pelo final dos anos vinte, tendo organizado, em 1955, a antologia Poesia para a Infância. Traduziu o Principezinho de Saint-Exupery e dedicou-se, depois de 1967, exclusivamente à literatura infantil. Fundadora e dinamizadora da Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, desenvolveu, através dessa Associação, diversos projetos pedagógicos justamente considerados pioneiros. Faleceu em 1983.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Bons amigos




BONS AMIGOS

BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro para chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora para consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direcção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

Não são rosas são tulipas, partilho-as com todos os amigos que passarem por aqui...





 

domingo, 1 de junho de 2014

A beleza de uma criança

Dia Mundial da Criança é oficialmente o dia 20 de novembro, data que a ONU reconhece como Dia Universal das Crianças por ser a data em que foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e a Convenção dos Direitos da Criança em 1989. Porém, a data efetiva de comemoração varia de país para país.
Em Portugal, o dia das crianças é festejado no dia 1 de junho
O dia da criança foi comemorado, no mundo inteiro a 1 de junho de1950.





A Beleza de Uma Criança
Como é lindo um sorriso numa criança
O seu olhar brilhante
E a sua alma cheia de esperança
Numa vida radiante.

Como é lindo a sua inocência
A sua bondade e o seu divertimento
À medida que vai ganhando experiência
Nesta vida que voa ao ritmo do vento.

Como é lindo vê-la crescer
Sempre, mas sempre a brincar
Sem nunca deixar de aprender
O que mais tarde terá que ensinar.

Como é lindo ouvir o seu falar
Calmo, suave e inocente
Ao nos contar o que acabou de sonhar,
Sempre com uma alegria fluente.

Como é lindo tudo isto existir
E nos encher o coração de esperança
Que um novo futuro virá a sorrir,
E com ele a felicidade de uma criança.

Escrito por: João Filipe Ferreira (Direitos Reservados)
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=8559#ixzz32x85U8gN





Um feliz Dia da Criança para todas as crianças bem como para
os adultos que ainda têm o seu lado infantil bem conservado.

sábado, 31 de maio de 2014

Espigas d'Ascensão!



Espigas d'Ascensão!
Olha ao redor, meu amor,
Vê esta paz e harmonia
Só se mexem as espigas
E o sol nos faz companhia.

Dou-te este ramo de espigas
Com papoilas no seu seio
Tu és a papoila aberta
Eu a espiga do meio.

Com este ramo de espigas
Lembraremos nosso pão
Não há melhor que te diga
Que é teu o meu coração.

Ai, meu amor, meu amor
Ai, meu amor, já te disse:
Não há como tu papoila
Que ser humano já visse!

© Acácio Costa
Pintura: AD
 

terça-feira, 27 de maio de 2014

O Tejo



Da minha janela
Foto da minha autoria

O Tejo 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior que o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa
(1888-1935)



O elo de ligação entre as duas margens
Foto da minha autoria





 

sábado, 24 de maio de 2014

Da minha janela

Da minha janela

Da minha janela
Eu vejo o mar,
Errante, a ir
Foto: Da minha janela

Da minha janela
Eu vejo o mar,
Errante, a ir
Para depois
Poder voltar;
Da minha janela
Eu vejo o ar,
Numa nuvem,
Que por lá anda,
Sem pressas,
Como se andasse,
Sozinha, por lá
A andar por andar;
Da minha janela
Eu vejo o vento,
Numa folha,
Que caiu,
Desamparada,
Mas que, entretanto
Navega, na tua brisa
Que está a passar;
Da minha janela,
Eu vejo o que vejo,
Vejo tudo, vejo nada
Vejo só, vejo apenas
Aquilo que consigo,
Longe ou perto,
Avistar
Ou alcançar;
Da minha janela,
Eu vejo mesmo sem ver,
Por que vejo o que vejo
E ainda o que sou capaz
De imaginar ou sonhar;
Da minha janela,
Eu vejo a vida,
Rica, de uma riqueza
Única, sem par
Mas só se a consigo
Ter por perto,
Quando me ponho
Sozinho, a imaginar;
Da minha janela
Eu vejo o mundo,
Um mundo sem fundo,
Até onde sou capaz
De o imaginar ou sonhar.

MA, "SobreViver", 2013, pp. 52/3.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=532975903421916&set=a.175549152497928.49676.100001285343098&type=3&theater
Para depois
Poder voltar;
Da minha janela
Eu vejo o ar,
Numa nuvem,
Que por lá anda,
Sem pressas,
Como se andasse,
Sozinha, por lá
A andar por andar;
Da minha janela
Eu vejo o vento,
Numa folha,
Que caiu,
Desamparada,
Mas que, entretanto
Navega, na tua brisa
Que está a passar;
Da minha janela,
Eu vejo o que vejo,
Vejo tudo, vejo nada
Vejo só, vejo apenas
Aquilo que consigo,
Longe ou perto,
Avistar
Ou alcançar;
Da minha janela,
Eu vejo mesmo sem ver,
Por que vejo o que vejo
E ainda o que sou capaz
De imaginar ou sonhar;
Da minha janela,
Eu vejo a vida,
Rica, de uma riqueza
Única, sem par
Mas só se a consigo
Ter por perto,
Quando me ponho
Sozinho, a imaginar;
Da minha janela
Eu vejo o mundo,
Um mundo sem fundo,
Até onde sou capaz
De o imaginar ou sonhar.

MA, "SobreViver", 2013, pp. 52/3.
 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Poemas no ar


Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa





Eu sou do tamanho do que vejo

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.
 
  Alberto Caeiro, em "O Guardador
   de Rebanhos"
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